Segunda-feira, 8 de Março de 2010

Mukandas ...

 

 

Mukandas que ainda escrevo

Fernando Cruz Gomes

O Fonseca Santos chamou-me à liça, face a um artiguelho que deixei por aí. Chamou-me à liça e foi-me mexendo em várias feridas que ainda sangram e não saram por muito que eu viva. E mesmo que haja confusões nas datas e um outro “quiproquo” de nomes, a verdade é que manda a boa educação que se passe por cima de coisas de somenos e avancemos... avancemos, pelo menos, para deixar dito aos mais novos quem é quem... e quem foi quem. E o Fonseca Santos foi um homem de mão cheia. Que mesmo sendo comandante da tal “terrível” Polícia... sabia vestir a pele humana que muitos teimam em deixar em casa, quando em “apertos” de Governação ou de farda. Ele, não.

E o “Jornal do Congo” –  era tão somente, por essa altura, o mais aguerrido dos Jornais que havia por Angola. Aguerrido em todos os aspectos. Tanto que me contavam que, em Luanda – na grande Luanda onde havia Jornais mais que muitos e Jornalistas de mão cheia – se faziam bichas (ou filas, se preferirem) para o comprar. E ele só dizia verdades. Ou coisas que pareciam verdades. E sobre o comandante Fonseca Santos nunca disse a não ser... algo das pequenas maravilhas que ele ia por lá fazendo.

O Tavares da Silva era um jornalista de mão cheia. Ó homem... trinta anos de...”, como ele dizia quando queria fazer valer os seus dotes neste ou naquele sector. Mas o Adelino – o meu querido Adelino, que já lá vai... – haveria de aparecer mais tarde na redacção do “Jornal do Congo”. Encontrei-o. Trabalhei com ele mais tarde em “O Comércio”, de Luanda, um diário comandado pelo Ferreira da Costa – jornalista de um grande peso, a despeito de muitos “pigmeus” ainda hoje lhe assacarem culpas que ele não tinha. O Tavares da Silva haveria de ir para o Uige mais tarde, bem mais tarde...

E aqui entronca outra nota. É que eu tive duas passagens pelo Uige. Uma, de Dezembro de 1960 a Maio de 1962, e uma outra mais tarde, quando me zanguei com Luanda, e voltei ao Uige, em 1965. Uige que, por essa altura, já não era a minha cidade. Já era muito mais “sofisticada” e pouco “voluntariosa” em coisas úteis ao todo geral. Já se olhava muito para o umbigo. As pessoas olhavam-se muito ao espelho.

Em Dezembro de 1960 – estava eu praticamente a começar a minha profissão (que nunca larguei... nem largarei) – estava no “Jornal do Congo”, como chefe de Redacção o Sousa e Costa. Um Sousa e Costa que tinha sucedido a um grande Bobela da Mota (que eu já só conheci em Luanda). E que tinha vindo – imagine! – do Quadro dos chefes de Posto. Escrevia primorosamente bem, como haveria de provar, mais tarde, em Luanda, no “Café da Noite” de Sebastião Coelho.

Sousa e Costa que, a determinada altura, numa operação militar que ele acompanhou – ele que dizia que nunca haveria de usar capacete nem arma, porque um Jornalista não era para isso... – apanhou com um estilhaço na cabeça e quase se ia desta para melhor. Anda por Lisboa – ou andou, já nem sei – a chorar as suas mágoas de perder a terra que tanto amava. Eu, ao contrário, sempre que ia para uma operação militar, “vestia-me” à militar, pois sabia que o inimigo não entendia essa subtileza de ser Jornalista e nem sabia ler os códigos da Convenção de Genebra. Alguns nem hoje sabem...! E em operações que fiz – algumas com figuras de proa, como o Spínola, uma autêntica “galinha política” mas um bom cabo de guerra, e o Maçanita, um verdadeiro herói – andei sempre de capacete e com arma... apesar de nunca ter sido soldado.

Saí do Uige, a primeira vez, em Maio de 62. E voltei lá em 1965. Não gostei da segunda ida. Já havia muito “mercantilismo”, mesmo desse... tal Zé, que eu nem sonhava que ele fosse vendedor dessa coisa – a tal maldita liamba – e está hoje, aqui em baixo, nos nossos vizinhos do Sul, continuando na Rádio e na TV.

O Monteiro Flor haveria de ir, mais tarde, para a Emissora Oficial de Angola. Como Director. Lembrei-me que, no Uige, o tratava por tu. Fui-me a ele e disse: “bem... agora, como é director, eu tenho de o tratar por “sr. Doutor”. E ele, acto contínuo: “tu chama-me como quiseres... mas eu vou continuar a tratar-te por tu... não mudou nada”. E a verdade é que, em público, continuámos sempre a tutear-nos...

O Hotel Moremo, não é? Só o conhecia por fora... mas conheci-lhe a “fama”.

No ABC, um bom Jornal, como diz o comandante Fonseca Santos, estive eu antes de ir para o Uige, em Dezembro de 60. Foi um dos meus primeiros “mergulhos” na Informação em Angola. Tinha como chefe de redacção o então jovem Acácio Barradas (que se foi há dias...) Depois de Maio de 62... fui para “O Comércio” e Emissora Oficial de Angola (onde comecei como repórter estagiário e o 74 me encontrou como chefe de departamento de programação). Quando me zanguei com Luanda, fui ao Uige e, dali, uns poucos meses depois, pulei para Benguela, chefiar o Rádio Clube de Benguela. E dali de novo para a Emissora Oficial e para o Comércio. Depois só Emissora Oficial. E, depois, mais tarde, - em simultaneo com as minhas funções da Emissora Oficial -  “a provincia de Angola”, que mudou de nome já quando eu era uma espécie de director, isto é, como director figurava no cabeçalho o “Conselho de Redacção”, mas como eu era o presidente do Conselho de Redacção... Coisas que não cabem nesta “Mukanda” que achei dever escrever ao Fonseca Santos. E vou pedir ao Casimiro para me entregar...

E antes de terminar... deixe que lhe lembre que teve um substituto – creio que foi seu substituto – chamado José Maria Barroso Branco Ló. Um dia, por uma coisa qualquer que eu escrevi, pôs-me em Tribunal (aliás, durante muito tempo, fui o Jornalista que mais processos em Tribunal tive e não fui condenado por nenhum...) Pôs-me em tribunal. E eu rapei da caneta e escrevi uma crónica primorosa. Que o Garcez Lencastre – era ele o censor, imaginem – deixou passar por não perceber. É que eu fazia o elogio do Bolo-Rei e criticava o Pão de Ló. Dizia eu que o primeiro era fantástico. O Pão de Ló, não, já que até fazia obstipações... Está a ver?  - O pocesso do capitão Ló – nessa altura capitão – nem foi avante porque ele entendeu. O capitão Ló – nessa altura já major – haveria de acompanhar o Rebocho Vaz – meu amigo de muitos anos – para o cargo de Governador Geral de Angola. Creio que como Ajudante de Campo. Ou lá o que era. Cruzei-me com ele muitas vezes e creio que sempre nos respeitámos...

Mukanda longa esta, hem? Mas que querem... o Fonseca Santos é que teve a culpa. Se quiserem, processem-no a ele...!  Cruz Gomes - Toronto

 

 

 

 

 

 

 

publicado por blogdaportugalidade às 10:56
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